PROTAGONISMO EDUCACIONAL

Por um protagonismo criativo e financeiro de pessoas educadores

Por Victor Varcelly

Atualmente, o cenário educacional tem sido amplamente pautado pelo imperativo de enxugamento dos custos e desvalorização das pessoas educadoras nas instituições dos mais variados setores. Não são poucos os relatos de educadores que abandonaram atividades de ensino e migraram para outras carreiras, nas quais passou a ser possível obter sustento econômico a partir de outras competências.

Referido contexto inclui a crescente midiatização da educação e se fundamenta na imposição de limitações das potências do educador, restringindo-o a um mero participante dessas produções pré-formatadas no EAD, em dinâmicas que priorizam o lucro das empresas ao invés da qualidade educacional do conteúdo e da valorização do profissional educador.

Enquanto professor-pesquisador, a minha proposta envolve convidar mais pessoas educadoras ao protagonismo criativo e financeiro de suas produções educacionais. Isso com os objetivos de alcançar os mais diversos públicos e de ampliar a sala de aula. Sempre se apoiando na busca conjunta por uma vida financeiramente viável e centrada na educação.

O grande desafio subjetivo dessa proposta me parece ser nossa conscientização, enquanto pessoas educadoras, de que temos o direito de ser detentoras e gestoras de nossas próprias produções educacionais. O segundo desafio é ético, posto que nos será necessário converter parte de nossas produções educacionais em produtos educacionais rentáveis, acessíveis e de alta qualidade. Desafios que alcançam principalmente aqueles que valorizam a difusão ampla e gratuita do conhecimento como um dos principais horizontes do potencial transformador da educação em nossa sociedade, seja de forma presencial ou midiática. Assim, nos deparamos com vários obstáculos práticos, dentre eles: a busca por acessar o público não apenas enquanto consumidores e consumidoras, mas também enquanto cidadãos e cidadãs. Para além disso, iniciar na área de criação de produtos midiáticos pode parecer assustador, justamente por ser o ingresso em uma outra mecânica de trabalho, responsabilidades, contratos e riscos.

Pensar em produtos comunicacionais educacionais nos demanda pensar em um “público-alvo”, ou, de forma mais ampla: em um público consumidor. O que, a princípio, seria uma contradição frente ao contexto educacional pautado por uma visão libertadora e cidadã. A necessidade de um protagonismo e da gestão do educador frente às próprias produções, advém justamente desse cenário, fazendo-se necessário que o educador tenha consciência da integralidade de sua atuação e, por meio disso, busque ativamente outros agentes (escolas, faculdades públicas, órgãos governamentais e não governamentais) e outros formatos, para além de produtos, que possibilitem alcançar o público enquanto cidadão - e não somente enquanto consumidor. As estruturas públicas de ensino, de comunicação e de convivência são ótimos parceiros neste objetivo. Mas e aí: você consegue listar quais são os jornais, centro de ensino e demais aparelhos públicos de sua cidade? Ou tem pensado somente nos grandes players internacionais e nas últimas tecnologias?

A internet pode, eventualmente, ser a opção mais prática e menos custosa quando comparada à imprensa, ao rádio e à televisão. Todavia, o impacto e o alcance das suas produções educacionais podem ser reduzidos. A busca ativa pelo cidadão por um ensino libertador e pelo potencial de transformação social da educação não pode ser abandonada nesta reorganização e redistribuição das produções educacionais. Mais do que qualquer outro “chapéu” que, eventualmente, venha a ser necessário vestir para impulsionar a produção educacional, é indispensável compreender que as pessoas são o norte a ser alcançado.

Aqui, faz-se necessário pensar localmente de forma mais aprofundada, evitando a reprodução de discriminações e apagamentos impostos por um mercado centralizado e direcionado a atender às necessidades do sul do país ou a padrões desterritorializados. Bem como para conectar a produção educacional às necessidades dos cidadãos de uma localidade específica, afinal: nem todas as questões são globais ou passíveis de serem abordadas de forma desterritorializada. Por exemplo, importar de forma descriteriosa assuntos atuais dos grandes centros nacionais e internacionais pode ser um erro, principalmente, quando pensamos no impacto transformador da educação. É justamente desse modo que, geralmente, surgem eventos educacionais sobre os impactos da inteligência artificial na internet para cidades e públicos que possuem baixíssimo grau de acesso à internet em seu cotidiano. A temática, por si só, possui sua relevância, entretanto, o debate quando feito sem considerar o baixo grau de acesso à internet daquela população, torna-se desconexo com a realidade, convertendo o potencial educacional e de mudança daquela sociedade em simples divulgação pessoal do educador.

Reivindicar a importância dos educadores como criadores de produtos midiáticos educacionais é urgente, posto que o mercado educacional tem demandado novas produções em grande quantidade, enquanto secundariza os critérios educacionais em detrimento das novas formatações comunicacionais. Retomar e valorizar nosso potencial criativo para além de livros, aulas e cursos. Gerir e olhar de forma acolhedora para as nossas próprias produções, pensando em como redistribuí-las com a educação e a cidadania como norte. E abordar de forma conjunta com outros profissionais (roteiristas, designers, editores, programadores etc.) as grandes questões que nos estão sendo postas na atualidade educacional do país é parte dos desafios do nosso tempo.

A abordagem educacional aqui proposta é, portanto, transversal. E vem sendo utilizada ao longo do século XX por muitos artistas, políticos, diretores televisivos e outros tantos agentes que disputaram a opinião pública acerca dos mais diversos temas. Nós, pessoas educadoras, somos figuras indispensáveis para intermediar o avanço dessa transição de uma educação que, cada vez mais, vai além das salas de aula e de espaços tradicionalmente educacionais para os produtos midiáticos de forma acelerada.

Buscando, assim, evitar mais desinformação e negacionismo científico, bem como da desvalorização moral e financeira de profissionais educadores. Independentemente do formato comunicacional e presencial, o que vivemos é a educação. Afinal, todas as formas de aprendizado têm a vida em comum.

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